Se é aqui que o couro come
Me intriga saber
Por que logo ali
É que o povo passa fome
Sem efeitos: o que eu tenho pra te oferecer muda sob o teu olhar
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Fator de correção
Dessas coisas que me deixam aflito
São os que têm respostas pra vida:
Ou devem fazer boas perguntas
Ou andam com o gabarito
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
quinta-feira, 21 de maio de 2015
quarta-feira, 29 de abril de 2015
Aberto
Prestes a dormir, pensou em procurar quem escrevia as linhas de sua vida.
Não eram satisfações.
Queria ter certeza de que tudo sairia como planejado.
Ou que o destino seria tão minucioso como uma autobiografia.
Estava sonhando.
Não eram satisfações.
Queria ter certeza de que tudo sairia como planejado.
Ou que o destino seria tão minucioso como uma autobiografia.
Estava sonhando.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Guardanapo
"não existe lugar
mais seguro para se estar
que a memória de alguém"
Anotou e dobrou ao meio.
Mero souvenir. À verdade, jamais esqueceria.
Esperava que o mesmo acontecesse com tudo que deixara na lembrança dela.
Era o melhor que tinha.
Guardou no bolso.
mais seguro para se estar
que a memória de alguém"
Anotou e dobrou ao meio.
Mero souvenir. À verdade, jamais esqueceria.
Esperava que o mesmo acontecesse com tudo que deixara na lembrança dela.
Era o melhor que tinha.
Guardou no bolso.
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Tic tac
Cansou
De viver às voltas, volta e meia
Por um momento tão curto
A torcer que o resto se pusesse a correr
Parou
Se for para viver de passado
Que o tempo congele na hora exata
Para eu nunca mais me afastar de você
De viver às voltas, volta e meia
Por um momento tão curto
A torcer que o resto se pusesse a correr
Parou
Se for para viver de passado
Que o tempo congele na hora exata
Para eu nunca mais me afastar de você
quarta-feira, 8 de abril de 2015
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Sol
Tentando esquecer
as dores estirou-se à sombra fria
Levantou então as pernas só mesmo por garantia
Levantou então as pernas só mesmo por garantia
Porque só
sem os pés no chão é que alguém sonha de dia
segunda-feira, 30 de março de 2015
Letrinhas
Queria um
amor desses de cinema
Com crédito e tudo
Só para não ter dúvida
Quando chegasse no final.
domingo, 29 de março de 2015
Prateleira
Depois de colecionar fracassos, percebeu
Que o que tinha de mais importante na vida
Era justamente o que ele já não mais tinha
Que o que tinha de mais importante na vida
Era justamente o que ele já não mais tinha
quarta-feira, 25 de março de 2015
Linha
Ele ligou pra ela.
Ela ligou pra ele.
Ele ligou pra ele.
Ela ligou pra ela.
Ela pra eles. Eles pra ela. Eles pra eles.
Ele pra elas. Elas pra ele. Elas pra elas.
Fiquei mudo.
Estava ocupado demais pra ligar pra tudo isso.
Ela ligou pra ele.
Ele ligou pra ele.
Ela ligou pra ela.
Ela pra eles. Eles pra ela. Eles pra eles.
Ele pra elas. Elas pra ele. Elas pra elas.
Fiquei mudo.
Estava ocupado demais pra ligar pra tudo isso.
quarta-feira, 18 de março de 2015
Vinco
Se
desdobrou.
Se
redobrou.
Se dobrou.
Mas se esqueceu
que um origami ainda é uma folha em branco.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Sóbrio
eu queria ter um vício
desses bem mais fortes
com nome proibido
que não venha em frascos.
desses que se compra
desses que se rouba
desses que se morde
e não ligo se assopra.
não sei se pra bater
se pra cheirar, se pra esquecer
o pouco que sei
é que não posso mais me viciar em você.
desses bem mais fortes
com nome proibido
que não venha em frascos.
desses que se compra
desses que se rouba
desses que se morde
e não ligo se assopra.
não sei se pra bater
se pra cheirar, se pra esquecer
o pouco que sei
é que não posso mais me viciar em você.
domingo, 1 de março de 2015
Indigesto
Fica. Mais. Um. Pouquinho.
Dizia ela, enquanto ele a beijava como alguém que vai a um prato que atrasou para ficar pronto.
Enchia a boca.
Enchia a boca.
Lá pelas tantas se levantou. Sem dizer nada saiu.
Parou no portão. Limpou o canto dos lábios.
Não a viu.
Seguiu.
Sabia que haveria tempo para a digestão.
Rezou para que fosse o suficiente.
Não seria.
Maldito amor, pensou. Sempre o confundo com a fome.
E só vejo a diferença quando já não me cabe mais nada, mas ainda me sinto vazio.
E insatisfeito.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Espólio
A humanidade se divide em dois tipos de pessoas: as que morrem e as que vivem pra sempre.
Todo mundo nasce no primeiro grupo. É a lei natural das coisas. Alguns crescem, outros crescem e se reproduzem, mas todos morrem. Passam a vida inteira discutindo o que vai acontecer quando ela acabar e acabam deixando tudo por aqui, menos a resposta.
Aliás, a tal resposta é o que faz a gente acabar carimbando de vez o passaporte no Pelotão 1. Estamos sempre com alguma na ponta da língua, mas morremos de medo das perguntas. Na verdade, às vezes sequer temos tempo de ouvi-las.
Construímos castelos para nós mesmos enterrarmos. Se engana quem acha que vai levar alguma coisa do mundo. Se engana ainda mais quem acha que vai deixar. Os castelos são os primeiros a desmoronar.
E o único jeito de não deixar isso acontecer é morrendo sozinho. Porque por mais que pareça, não somos nós que escolhemos a qual tipo pertencemos. O poder é de quem fica por aqui. O máximo que dá pra fazer é deixar uma dica. Algo que valha a pena ser guardado, mas que não caiba na estante ou dentro de um porta-retrato.
Há 2 anos um grande amigo despedia-se solitário desse mundo.
Sorte a minha.
Porque carne e osso vão. A história fica.
Bem vindo ao Grupo 2.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
18
Chegar aos dezoito é emblemático.
Muita coisa muda.
Nada por dentro. Tudo por fora.
Parece entrar pela janela da noite pro dia.
Aí que a gente percebe.
É o tal reconhecimento.
Aos dezoito, esperam que você já seja forte.
Aos dezoito, exigem que você pense antes de agir.
Aos dezoito, exigem que você pense.
Mas nunca se está pronto.
Dezoito é muito pouco.
Ansioso, esperei que esses dezoito não chegassem nunca.
Mas completamos.
18 meses sem você.
Muita coisa mudou.
Tudo por fora. Nada por dentro.
Você ainda está aqui.
Muita coisa muda.
Nada por dentro. Tudo por fora.
Parece entrar pela janela da noite pro dia.
Aí que a gente percebe.
É o tal reconhecimento.
Aos dezoito, esperam que você já seja forte.
Aos dezoito, exigem que você pense antes de agir.
Aos dezoito, exigem que você pense.
Mas nunca se está pronto.
Dezoito é muito pouco.
Ansioso, esperei que esses dezoito não chegassem nunca.
Mas completamos.
18 meses sem você.
Muita coisa mudou.
Tudo por fora. Nada por dentro.
Você ainda está aqui.
quarta-feira, 26 de março de 2014
Antônios e Tonis.
6:15.
Antônio e Toni acordam em casa.
Antônio é
desempregado, pai de 5 filhos. Toni é da PUC, filho único.
Antônio
pega 3 conduções. Toni conduz o carro da mãe.
Antônio é
alienado: assiste Globo. Toni é antenado: lê o Gregório na Folha.
Antônio
trabalha há 40 anos. Toni lê Marx há 4 meses.
Antônio não
acredita no mundo. Toni acredita que pode mudá-lo.
Telefone
pro Antônio. Mensagem pro Toni.
É
entrevista, Antônio, vai sair do olho da rua. É luta, Toni, vem pra rua.
Antônio
sobe no coletivo. Toni desce no elevador.
No relógio
de Antônio: 8 horas. No de Toni, 7:55 a.m..
Antônio vai
espremido no banco. Toni vai mais ainda na calçada.
Antônio
apaga no ônibus. Toni acende um pneu.
Antônio
respira o ar viciado. Toni, bomba de efeito moral.
Antônio
está parado. Toni está movendo o país.
10:30.
Antônio perde a entrevista. Toni ganha a capa do jornal.
Capitalista,
Antônio pega o celular. Socialista, Toni esconde o dele.
Antônio
enrola pra dar a notícia em casa. Toni enrola um baseado no carro.
O governo
vai me ajudar, pensa Antônio. O governo vai me pagar, grita Toni.
Antônio
espera a próxima. Toni também.
Antônio
volta pra casa. Toni, para o seu mundo.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Amuleto
Meu pai sempre foi um sujeito supersticioso. Caricato. Desse que faz o
sinal da cruz três vezes seguidas, só pra reforçar. Camisas de São Jorge devia
ter trinta, que ele combinava com as quatro medalhas que levava no peito.
Tatuagens sempre em número ímpar, pra não dar azar. Do quarto, gritava
religiosamente todas as manhãs:
-
Rita,
qual a cor de gravata hoje?
-
Lilás,
André! – variava de acordo com a energia, mas sem mudar o nó, igual por 20
anos.
Às vezes eu questionava sua fé, dizia que se perdia no meio de tanto
ritual. Só pra provocar. Eu sabia que na verdade ele se deixava marcar por
momentos. Assustadoramente atencioso, procurava no êxito uma razão. E quando
achava, era capaz de repetir eternamente. Assim ele construiu suas tradições,
que por serem muitas, nunca ficavam chatas. Quase nunca.
E aí eu aprendi que homem de verdade penteia o cabelo para um lado e
coloca o cinto para o outro (o mesmo da mão do relógio), que se sai de casa
sempre com o pé direito, que antes de mergulhar se salta com os dois
pés e que dia 29 é nhoque que vai pra mesa, e que os sete primeiros pedaços se
comem de pé.
Mesmo que não tivesse nenhuma explicação, meu pai tinha a fórmula do
sucesso.
Ele entendia, eu não. Até hoje.
2013, o primeiro ano sem ele aqui na terra, foi o melhor da minha vida.
Árduo, mas irretocável. Tudo deu certo.
Talvez sejam suas maluquices de novo. Deve estar tentando me mostrar que
o evento mais marcante da minha vida pode ser o ponto de partida para a minha
fórmula de sucesso. Minha e de uma porrada de gente. Ele não me deixou sozinho.
E é fácil de imaginar e de entender: lá de cima deve ser muito mais fácil dar
uma forcinha.
Que venha 2014. Estou com sorte.
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