Sem efeitos: o que eu tenho pra te oferecer muda sob o teu olhar

quarta-feira, 18 de março de 2015

Vinco

Se desdobrou.
Se redobrou.
Se dobrou.


Mas se esqueceu que um origami ainda é uma folha em branco.


segunda-feira, 9 de março de 2015

Sóbrio

eu queria ter um vício
desses bem mais fortes
com nome proibido
que não venha em frascos.

desses que se compra
desses que se rouba
desses que se morde
e não ligo se assopra.

não sei se pra bater
se pra cheirar, se pra esquecer
o pouco que sei
é que não posso mais me viciar em você.

domingo, 1 de março de 2015

Indigesto

Fica. Mais. Um. Pouquinho.
Dizia ela, enquanto ele a beijava como alguém que vai a um prato que atrasou para ficar pronto.
Enchia a boca. 

Lá pelas tantas se levantou. Sem dizer nada saiu. 
Parou no portão. Limpou o canto dos lábios. 
Não a viu.
Seguiu. 

Sabia que haveria tempo para a digestão. 
Rezou para que fosse o suficiente.
Não seria.

Maldito amor, pensou. Sempre o confundo com a fome. 
E só vejo a diferença quando já não me cabe mais nada, mas ainda me sinto vazio. 

E insatisfeito. 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Espólio

A humanidade se divide em dois tipos de pessoas: as que morrem e as que vivem pra sempre. 

Todo mundo nasce no primeiro grupo. É a lei natural das coisas. Alguns crescem, outros crescem e se reproduzem, mas todos morrem. Passam a vida inteira discutindo o que vai acontecer quando ela acabar e acabam deixando tudo por aqui, menos a resposta.

Aliás, a tal resposta é o que faz a gente acabar carimbando de vez o passaporte no Pelotão 1. Estamos sempre com alguma na ponta da língua, mas morremos de medo das perguntas. Na verdade, às vezes sequer temos tempo de ouvi-las.

Construímos castelos para nós mesmos enterrarmos. Se engana quem acha que vai levar alguma coisa do mundo. Se engana ainda mais quem acha que vai deixar. Os castelos são os primeiros a desmoronar.

E o único jeito de não deixar isso acontecer é morrendo sozinho. Porque por mais que pareça, não somos nós que escolhemos a qual tipo pertencemos. O poder é de quem fica por aqui. O máximo que dá pra fazer é deixar uma dica. Algo que valha a pena ser guardado, mas que não caiba na estante ou dentro de um porta-retrato. 

Há 2 anos um grande amigo despedia-se solitário desse mundo.
Sorte a minha. 
Porque carne e osso vão. A história fica.
Bem vindo ao Grupo 2. 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

18

Chegar aos dezoito é emblemático.
Muita coisa muda.
Nada por dentro. Tudo por fora.
Parece entrar pela janela da noite pro dia.
Aí que a gente percebe.
É o tal reconhecimento.
Aos dezoito, esperam que você já seja forte.
Aos dezoito, exigem que você pense antes de agir.
Aos dezoito, exigem que você pense.
Mas nunca se está pronto.
Dezoito é muito pouco.

Ansioso, esperei que esses dezoito não chegassem nunca.
Mas completamos.

18 meses sem você.
Muita coisa mudou.
Tudo por fora. Nada por dentro.

Você ainda está aqui.


quarta-feira, 26 de março de 2014

Antônios e Tonis.

6:15. Antônio e Toni acordam em casa.
Antônio é desempregado, pai de 5 filhos. Toni é da PUC, filho único.
Antônio pega 3 conduções. Toni conduz o carro da mãe.
Antônio é alienado: assiste Globo. Toni é antenado: lê o Gregório na Folha. 
Antônio trabalha há 40 anos. Toni lê Marx há 4 meses.
Antônio não acredita no mundo. Toni acredita que pode mudá-lo.
Telefone pro Antônio. Mensagem pro Toni.
É entrevista, Antônio, vai sair do olho da rua. É luta, Toni, vem pra rua.
Antônio sobe no coletivo. Toni desce no elevador.
No relógio de Antônio: 8 horas. No de Toni, 7:55 a.m..
Antônio vai espremido no banco. Toni vai mais ainda na calçada.
Antônio apaga no ônibus. Toni acende um pneu.
Antônio respira o ar viciado. Toni, bomba de efeito moral.
Antônio está parado. Toni está movendo o país.
10:30. Antônio perde a entrevista. Toni ganha a capa do jornal.
Capitalista, Antônio pega o celular. Socialista, Toni esconde o dele.
Antônio enrola pra dar a notícia em casa. Toni enrola um baseado no carro.
O governo vai me ajudar, pensa Antônio. O governo vai me pagar, grita Toni.
Antônio espera a próxima. Toni também.

Antônio volta pra casa. Toni, para o seu mundo.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Amuleto

Meu pai sempre foi um sujeito supersticioso. Caricato. Desse que faz o sinal da cruz três vezes seguidas, só pra reforçar. Camisas de São Jorge devia ter trinta, que ele combinava com as quatro medalhas que levava no peito. Tatuagens sempre em número ímpar, pra não dar azar. Do quarto, gritava religiosamente todas as manhãs:
-       Rita, qual a cor de gravata hoje?
-       Lilás, André! – variava de acordo com a energia, mas sem mudar o nó, igual por 20 anos.
Às vezes eu questionava sua fé, dizia que se perdia no meio de tanto ritual. Só pra provocar. Eu sabia que na verdade ele se deixava marcar por momentos. Assustadoramente atencioso, procurava no êxito uma razão. E quando achava, era capaz de repetir eternamente. Assim ele construiu suas tradições, que por serem muitas, nunca ficavam chatas. Quase nunca.
E aí eu aprendi que homem de verdade penteia o cabelo para um lado e coloca o cinto para o outro (o mesmo da mão do relógio), que se sai de casa sempre com o pé direito, que antes de mergulhar se salta com os dois pés e que dia 29 é nhoque que vai pra mesa, e que os sete primeiros pedaços se comem de pé. 
Mesmo que não tivesse nenhuma explicação, meu pai tinha a fórmula do sucesso.
Ele entendia, eu não. Até hoje.
2013, o primeiro ano sem ele aqui na terra, foi o melhor da minha vida. Árduo, mas irretocável. Tudo deu certo.  
Talvez sejam suas maluquices de novo. Deve estar tentando me mostrar que o evento mais marcante da minha vida pode ser o ponto de partida para a minha fórmula de sucesso. Minha e de uma porrada de gente. Ele não me deixou sozinho. 
E é fácil de imaginar e de entender: lá de cima deve ser muito mais fácil dar uma forcinha.

Que venha 2014. Estou com sorte.