Sem efeitos: o que eu tenho pra te oferecer muda sob o teu olhar

quarta-feira, 26 de março de 2014

Antônios e Tonis.

6:15. Antônio e Toni acordam em casa.
Antônio é desempregado, pai de 5 filhos. Toni é da PUC, filho único.
Antônio pega 3 conduções. Toni conduz o carro da mãe.
Antônio é alienado: assiste Globo. Toni é antenado: lê o Gregório na Folha. 
Antônio trabalha há 40 anos. Toni lê Marx há 4 meses.
Antônio não acredita no mundo. Toni acredita que pode mudá-lo.
Telefone pro Antônio. Mensagem pro Toni.
É entrevista, Antônio, vai sair do olho da rua. É luta, Toni, vem pra rua.
Antônio sobe no coletivo. Toni desce no elevador.
No relógio de Antônio: 8 horas. No de Toni, 7:55 a.m..
Antônio vai espremido no banco. Toni vai mais ainda na calçada.
Antônio apaga no ônibus. Toni acende um pneu.
Antônio respira o ar viciado. Toni, bomba de efeito moral.
Antônio está parado. Toni está movendo o país.
10:30. Antônio perde a entrevista. Toni ganha a capa do jornal.
Capitalista, Antônio pega o celular. Socialista, Toni esconde o dele.
Antônio enrola pra dar a notícia em casa. Toni enrola um baseado no carro.
O governo vai me ajudar, pensa Antônio. O governo vai me pagar, grita Toni.
Antônio espera a próxima. Toni também.

Antônio volta pra casa. Toni, para o seu mundo.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Amuleto

Meu pai sempre foi um sujeito supersticioso. Caricato. Desse que faz o sinal da cruz três vezes seguidas, só pra reforçar. Camisas de São Jorge devia ter trinta, que ele combinava com as quatro medalhas que levava no peito. Tatuagens sempre em número ímpar, pra não dar azar. Do quarto, gritava religiosamente todas as manhãs:
-       Rita, qual a cor de gravata hoje?
-       Lilás, André! – variava de acordo com a energia, mas sem mudar o nó, igual por 20 anos.
Às vezes eu questionava sua fé, dizia que se perdia no meio de tanto ritual. Só pra provocar. Eu sabia que na verdade ele se deixava marcar por momentos. Assustadoramente atencioso, procurava no êxito uma razão. E quando achava, era capaz de repetir eternamente. Assim ele construiu suas tradições, que por serem muitas, nunca ficavam chatas. Quase nunca.
E aí eu aprendi que homem de verdade penteia o cabelo para um lado e coloca o cinto para o outro (o mesmo da mão do relógio), que se sai de casa sempre com o pé direito, que antes de mergulhar se salta com os dois pés e que dia 29 é nhoque que vai pra mesa, e que os sete primeiros pedaços se comem de pé. 
Mesmo que não tivesse nenhuma explicação, meu pai tinha a fórmula do sucesso.
Ele entendia, eu não. Até hoje.
2013, o primeiro ano sem ele aqui na terra, foi o melhor da minha vida. Árduo, mas irretocável. Tudo deu certo.  
Talvez sejam suas maluquices de novo. Deve estar tentando me mostrar que o evento mais marcante da minha vida pode ser o ponto de partida para a minha fórmula de sucesso. Minha e de uma porrada de gente. Ele não me deixou sozinho. 
E é fácil de imaginar e de entender: lá de cima deve ser muito mais fácil dar uma forcinha.

Que venha 2014. Estou com sorte.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Barrigudo

- Pai, tive um sonho muito louco essa noite.
- Hum...
- Sonhei que tinha engravidado a Melissa.
...
- Estragou minha praia!

Era cedo no dia 24 de Dezembro. 9 meses e 1 dia atrás. Hoje, se fosse verdade, meu sonho estaria por aí, enrolado no colo de alguém que diria que é a minha cara. E eu, cheio de responsabilidades: contas a pagar, um caminho conturbado a trilhar e um futuro enorme pela frente. Aliás, um não, dois. Deus me livre! Uma vida. Eu não estou pronto para isso.

Mal sabia eu que tudo isso passaria na minha cabeça 24 horas mais tarde. Às 4h do dia 25 - vocês já sabem. Uma correria que poderia lembrar um parto surpresa. Era exatamente o contrário. Ou talvez ali você tenha realmente nascido, enfim. Como um feto, eu dormia. Como um feto, alguém me puxou. Como um feto, em poucos minutos me punha a chorar. Como um feto, a família inteira vinha me ver, acuado. Houve quem dissesse: "É a cara do pai!".

Há 9 meses eu nascia de novo, obrigado. E como em uma sequência de partos prematuros, sou obrigado a nascer, chorar e encarar o mundo com os olhos apertados toda vez que lembro daquele sorriso. Cada "Fala, gordinho!", cada putaqueopariu bem mandado, cada "Se liga, 16!" é uma bolsa que estoura.

É, não durou só 9 meses. Acho que nascerei dezenas, talvez centenas de vezes. Não me importo. Se conheço bem, cada vez que me vê nascer, você talvez até esqueça o que é morrer.

9 meses. E eu ainda tenho um futuro enorme pela frente. Um não, dois.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

De uma nota só.


Uma verdade: artistas dependem de público. Nem mesmo um monólogo acontece diante de ninguém. A plateia é o espetáculo, a razão. E isso não sou eu que estou dizendo.
Uma vez conheci um artista, de um personagem só, mas um belo artista. Talvez até por isso tenha feito da vida o seu espetáculo, e isso não é um trocadilho. Para ele, faxineiro ou presidente, todo mundo era plateia, e, é claro, merecia ver se show. Arrancava da plateia o riso contido, a gargalhada deliberada e a diversão complacente.
Carismático, sempre foi.
Todo mundo queria ver o espetáculo. Mas, de graça e com tanta desenvoltura, quem se renderia? Não havia mau humor que não virasse piada, mania que não virasse história e história que não virasse mania. De tanto sucesso, mal dava tempo de esvaziar as salas, o que resultou em um hábito peculiar: viciou-se no aplauso. Mal acaba um, emendava outro, só para ouvir a incontida plateia se manifestar. Gargalhava.
Um dia, na mesma rotina incontida, cansou-se e, no meio do espetáculo, decidiu ir embora. Mas era profissional, não parou no meio do ato. De tão bom, podia observar o olhar atento de cada espectador sem deixar escapar a tristeza da despedida ou fugir do personagem. Só para caber mais piadas em seu tempo contado, acelerou tanto a caminhada sobre as falas que acabou ofegante. 
Fim. 
Ouviu os aplausos, curvou-se ao público e, antes que alguém pudesse virar-se, saiu pela porta da frente do teatro, passando no meio da confusão. Foi embora.
Há quem diga que até agora não entende sua partida, há quem diga que espera sua volta e ainda hoje tem gente sentada na sala esperando a próxima peça.

No final das contas, entendi: fez do aplauso rotina porque detestava despedidas.

terça-feira, 26 de março de 2013

Patriota


Pequeno, pensou Pedro. Pequeno poder, pensamento pobre. Pequeno, pensou prevendo panorama perverso. Parado, puto, parecia provar punhalada.
Pintam paredes. Povoam prisões, prédios públicos. Pudor? Para! Pindorama patético. Puteiro!
Pro povo, pingado pardo, pão puro. Presunto? Privilégio! Por perto, pedreiro padece. Pendura pinga. Poupança? Pouco! Prefere pistola. Pólvora para pagar papelada.
Pro político: pensão, piscina, pingentes, piranhas, pastas, presentes. Patê? Pode pôr. Privam pobres por pura politicagem. Porém, precisando, pensam. Poder público passa parecendo piedoso, procurando posição privilegiada.
Prazer podre. Praxe perversa.
País pífio, pare. Pare pelo povo. Pare por piedade.
Pare! Pensou Pedro, parado.
Pensou prostrado.
Parou.


Texto inspirado no Monólogo do Mundo Moderno, de Chico Anysio. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Jogado.


Parecia que eu tinha caído de pára-quedas em campo. E de fato, tinha. Sem preleção, tática ou treino, minha certeza era uma só: não queria estar ali. Gente gritando, juiz, bandeira, televisão. Ah, agonia.
Apitaram. Percebi que não tinha jeito. Em vez de me perguntar como tinha entrado ali, eu tinha que jogar. No primeiro minuto, fiquei parado na linha de fundo, sequer entrei nas quatro linhas. Tinha medo, pavor, tristeza. O segundo minuto se arrastou, o terceiro também, e até o sétimo o meu pavor era tanto que, de fora, poderia até parecer que eu sabia o que estava fazendo, de tão estranhos que eram meus toques.
E não ache você que o jogo era bonito. Truncado era a palavra. Eu mal conseguia defender, que dirá atacar. Aos 20, já tinha tomado tanta porrada que a única coisa que me fazia continuar de pé era o afago dos meus companheiros. Técnico? Não tinha ninguém na linha lateral, apenas uma meia-dúzia de repórteres procurando flashes oportunos.
30 minutos. Pude ouvir a torcida gritar meu nome. Não que me fizesse esquecer o quanto eu odiava estar ali, mas pelo menos era algo que me fazia acreditar no meu futebol. mesmo sem nunca ter tocado em uma bola antes.
Fui ao ataque, conduzi, driblei, tabelei com três jogadores mais próximos. Levei a linha de fundo, levei perigo. E mais nada. A volta à defesa foi dura: ainda no meio de campo senti as pernas tremerem. Será que não conseguiria continuar?
44 do primeiro tempo. Eu não parava de olhar para o juiz: “Acaba logo, filho da puta!” – pensava em segredo. Estava para ficar maluco quando vi alguém do meu time desabar a quatro ou cinco metros de mim. Levantei a mão pedindo substituição e logo gritaram: “Não tem ninguém para entrar no lugar.”. O médico entrou, passou a mão na lesão, deu água e disse que dava para continuar. Ele levantou mancando. Abaixei apavorado.
Apitaram. “Graças a Deus!” – vamos ao descanso. “Só troca de lado!” – gritou o juiz, pegando a bola e colocando ao centro. Hã? Estava exausto e tinha plena certeza de que não aguentaria mais 45 pegados.
Começava o segundo tempo e eu já não sabia mais se eram 15 da etapa complementar ou 60 da inicial. Peguei a bola e isolei na arquibancada. Devolveram. “No gol, perna de pau!!”.
Busquei jogo pelas laterais. Nada. Desabei sem esconder a dor. Não teve médico. Levantei com ajuda dos companheiros.
75 minutos. Roubei a bola na defesa, levei a bola adiante, tomei uma porrada, mas me mantive em pé. Chutei em gol, defenderam. Chorei. Parecia jogar sozinho. Não tinha mais torcida e, do técnico, nem notícias. “Na TV, o jogo parecia tão fácil!” – resmunguei na intermediária.
“Faltam 5!” – gritou alguém da lateral. Nem ligava para o jogo, queria que tudo acabasse e eu fosse para casa, mas confesso, estava me acostumando com aquele ritmo. Me gritaram. Estavam todos na área, faltava apenas eu. O placar marcava 89 e o 0x0 ainda tinha cara de derrota.
Alçaram a bola. Bate-rebate, sobrou para mim. O goleiro não cresceu, parecia um anão e os zagueiros apenas olhavam. O mundo conspirava para o meu gol. Minha pernas tremiam, a garganta secou-se e era nítida a minha falta de experiência. Antes que pudessem me derrubar, chutei e fiz. Parecia cena de filme. Até adversário vinha me cumprimentar e a emoção era tanta que eu os abraçava como irmãos. Gol de canela com cara de gol de placa. Comemorei.
Apitaram os 90. Noventa longos minutos. Os mais duros da minha carreira. Não desabei, não arriei as meias, não tirei a camisa. Caminhei para a lateral. Me parabenizaram. Alguém falava em “próximo jogo”. Entendi.
Não eram 90 minutos, eram pontos corridos. Esse era o primeiro passo.
Arriei as meias e fui ao centro do campo.
Dessa vez quem não quer descanso sou eu.
E segue jogo.